Poema que o Oliveira gostava de recitar.
Dois grosadores.
Azulão e Borborema
João Ferreira de Lima
Borborema há seis meses
Que percorria o sertão
Somente para glosar
Com Benedito Azulão
Para ouvir o seu talento
Encontrou ele em São Bento
Numa noite de São João
Azulão estava dançando
No convívio de alegria
Quando terminava a parte
Ele glosava e bebia
Recitava o seu poema
Falava no Borborema
Mas ele não conhecia
Borborema aproximou-se
Daquele grande festim
Falou com o dono da casa
O fazendeiro disse assim
Ele entrou para o salão
Cumprimentou Azulão,
Por esta maneira assim:
B: Boa noite, amigo Azulão
Arás de quem eu andava
Há tempo que procurava
Pelas zonas do sertão
Chegou hoje a ocasião
Que desfruto o meu destino
Sou o Borborema ferino
Que gloso por linha reta
Eu faço medo a poeta
Como boi faz a menino
A: Se você ver Borborema
Lá na serra do Teixeira
Erguer sua cordilheira
Fazendo versos no tema
Você perde todo emblema
O meu gênio é soberano
Eu lhe tiro todo engano
Você perde muito feio
Não atravessa um rio cheio
Quanto mais um oceano
Nisto o dono da casa
Levantou-se e fez um riso
Disse para os poetas
Dois temas eu simpatizo
Na dança tem coisa boa
Dança só tem prejuízo
A: A dança é sociedade
É fruto que o amor tem
Porque a dança já vem
Da remota antiguidade
Não dança quem é covarde
Não honra sua pessoa
Eu danço que a poeira voa
Na volta que faz a dama
Quem dança namora e ama
Na dança tem coisa boa
B: Nos tempos que eu dançava
No durava o meu sapato
Fosse na praça ou no mato
Pouco dinheiro não dava
A minha roupa eu sujava
Saia de bolso liso
Perturbava o meu juízo
Perdia as noites de sono
O alheio chora o seu dono
Dança só traz prejuízo?
A: Na dança se goza a vida
Na dança não há tristeza
Na dança não há pobreza
Na dança a moça é querida
Na dança a velha é esquecida
Na dança se diz é loa
Na dança a dama é patroa
Na dança tudo é casado
Na dança tudo é gozado
Na dança tem coisa boa
B: Dança não tem confiança
Dança é que tem corrução
Dança é princípio do cão
A dança não tem bonança
Dança não tem finança
Dança quem for indeciso
Dança eu não simpatizo
Dança é da meretriz
Dança é gozo infeliz
Dança só traz prejuízo
A: Na dança não pega nada
Na dança é que bem se ama
Na dança é que se vê-se a dama
Na dança da umbigada
Na dança a moça é beijada
Na dança ninguém enjoa
Na dança o rapaz pregoa
Na dança o namoro fixa
Na dança a moça cochicha
Na dança tem coisa boa
B: Dança quem é manata
Dança é quem quebra honra
Dança é quem tem desonra
Dança também maltrata
Dança adoece e mata
Dança perturba o juízo
Dança relaxa o riso
Dança tira a vergonha
Dança acaba a cerimônia
Dança só traz prejuízo
A: Dança é fruto de amor
Aonde nasce a esperança
Na hora que o homem dança
Morrendo não sente a dor
O rapaz namorador
Quando ele se afeiçoa
Na hora que o harmonio zoa
Já ele está peneirando
Grita quem estiver olhando
Na dança tem coisa boa
B: A dança é condenada
A dança pode ser nobre
Seja rica ou seja pobre
Termina sendo falada
Nada sendo educada
Que dança seria sem riso
O malandro sem ser preciso
Difama qualquer donzela
Outro não casa com ela
Dança só traz prejuízo
A: Há moças que nunca casa
Detida no caritó
Não bota rouge nem pó
Cada vez mais se atrasa
Não dança porque se arrasa
Vai dando crença à lamproa
Não casa termina à toa
Quem dança consagra amor
Casa seja com quem for
Na dança tem coisa boa
B: A dança sempre termina
Com barulho ou questão
Já tenho visto prisão
Morte ou carnificina
A dança é sempre ruína
Por isso eu antipatizo
O homem que tem juízo
Não abraça a filha alheia
Oh! meu Deus que coisa feia
Dança só traz prejuízo!
A: Colega a dança é um fado
Que alegra um vagabundo
Quem não dança neste mundo
No outro mundo é dançado
A dança não é pecado
Na capital de Lisboa
O rei encosta a coroa
Dança namora e prosa
A dança é um céu de rosa
Na dança tem coisa boa
B: Sendo a moça Nazaré
Habituou-se dançando
O malandro saiu contando
O corpo dela o que é
Não tenho crença nem fé
Nem me responsabilizo
A moça que tem juízo
Não dança nem por dinheiro
Do Brasil ao estrangeiro
Dança só traz prejuízo
A: Os peixes brincam no mar
Fazendo mil piruetas
Nas relvas as borboletas,
Visitam outro lugar
Os pássaros noutro pomar
Seus trinos também entoam
O pescador na canoa
Canta e dança satisfeito
Cada um brinca perfeito
Na dança tem coisa boa
B: Quantas senhoras de bem
Foi vista na perdição
Por causa da corrução
Que a maldita dança tem
A dança não me convém
Eu protesto e antipatizo
Onde tem dança eu não piso
Oh! que brincadeira ruim
Um padre já disse a mim
Dança só dar prejuízo
A: No sertão tem tabuleiro
No serrote tem mocó
Lá no mato tem cipó
Na fazenda tem vaqueiro
No tesouro tem dinheiro
Lá na maré tem canoa,
No baixio tem lagoa
No fogo tem o calor
No coração tem o amor
Na dança tem coisa boa
B: O apóstolo João Batista
Foi morto na guilhotina
Por causa duma menina
Que dançava otimista,
Na denúncia pessimista
João Batista teve aviso,
Foi morto sem ser preciso
Por causa de Herodias,
Pois desde os remotos dias
Dança só traz prejuízo
O Azulão quando viu
Este verso da escritura
Mergulhou no meio do povo
Correu, perdeu a bravura
Fez como José Pretinho
Que quase perde o caminho
Nas trevas da noite escura
Juazeiro, 02 de maio de 1956
PELEJA ENTRE CEGO ADERALDO E ZÉ PRETINHO
Apreciem, meus leitores,
Uma forte discussão,
Que tive com Zé Pretinho,
Um cantador do sertão,
O qual, no tanger do verso,
Vencia qualquer questão.
Um dia, determinei
A sair do Quixadá
— Uma das belas cidades
Do estado do Ceará.
Fui até o Piauí,
Ver os cantores de lá.
Me hospedei na Pimenteira
Depois em Alagoinha;
Cantei no Campo Maior,
No Angico e na Baixinha.
De lá eu tive um convite
Para cantar na Varzinha.
Quando cheguei na Varzinha,
Foi de manhã, bem cedinho;
Então, o dono da casa
Me perguntou sem carinho:
— Cego, você não tem medo
Da fama do Zé Pretinho?
Eu lhe disse: — Não, senhor,
Mas da verdade eu não zombo!
Mande chamar esse preto,
Que eu quero dar-lhe um tombo
— Ele chegando, um de nós
Hoje há de arder o lombo!
O dono da casa disse:
— Zé Preto, pelo comum,
Dá em dez ou vinte cegos
— Quanto mais sendo só um!
Mando já ao Tucumanzeiro
Chamar o Zé do Tucum.
Chamando um dos filhos, disse
Meu filho, você vá já
Dizer ao José Pretinho
Que desculpe eu não ir lá
— E que ele, como sem falta,
Hoje à noite venha cá.
Em casa do tal Pretinho,
Foi chegando o portador
E dizendo: — Lá em casa
Tem um cego cantador
E meu pai mandou dizer-lhe
Que vá tirar-lhe o calor!
Zé Pretinho respondeu:
— Bom amigo é quem avisa!
Menino, dizei ao cego
Que vá tirando a camisa,
Mande benzer logo o lombo,
Porque vou dar-lhe uma pisa!
Tudo zombava de mim
E eu ainda não sabia
Se o tal do Zé Pretinho
Vinha para a cantoria.
As cinco horas da tarde,
Chegou a cavalaria.
O preto vinha na frente,
Todo vestido de branco,
Seu cavalo encapotado,
Com o passo muito franco.
Riscaram duma só vez,
Todos no primeiro arranco
Saudaram o dono da casa
Todos com muita alegria,
E o velhote, satisfeito,
Folgava alegre e sorria.
Vou dar o nome do povo
Que veio pra cantoria:
Vieram o capitão Duda Tonheiro,
Pedro Galvão, Augusto Antônio Feitosa,
Francisco, Manoel Simão,
Senhor José Campineiro,
Tadeu e Pedro Aragão.
O José das Cabaceiras
E o senhor Manoel Casado,
Chico Lopes, Pedro Rosa
E o Manoel Bronzeado,
Antônio Lopes de Aquino
E um tal de Pé-Furado.
Amadeu, Fábio Fernandes,
Samuel e Jeremias,
O senhor Manoel Tomás,
Gonçalo, João Ananias
E veio o vigário velho,
Cura de Três Freguesias.
Foi dona Merandolina,
Do grêmio das professoras,
Levando suas duas filhas,
Bonitas, encantadoras
— Essas duas eram da igreja
As mais exímias cantoras.
Foi também Pedro Martins,
Alfredo e José Segundo,
Senhor Francisco Palmeira,
João Sampaio e Facundo
E um grupo de rapazes
Do batalhão vagabundo.
Levaram o negro pra sala
E depois para a cozinha;
Lhe ofereceram um jantar
De doce, queijo e galinha
— Para mim, veio um café
E uma magra bolachinha.
Depois, trouxeram o negro.
Colocaram no salão,
Assentado num sofá,
Com a viola na mão,
Junto duma escarradeira,
Para não cuspir no chão.
Ele tirou a viola
De um saco novo de chita,
E cuja viola estava
Toda enfeitada de fita.
Ouvi as moças dizendo:
— Oh, que viola bonita!
Então, para eu me sentar,
Botaram um pobre caixão,
Já velho, desmantelado,
Desses que vêm com sabão.
Eu sentei-me, ele vergou
E me deu um beliscão.
Eu tirei a rabequinha
De um pobre saco de meia,
Um pouco desconfiado
Por estar em terra alheia.
Aí umas moças disseram:
— Meu Deus, que rabeca feia!
Uma disse a Zé Pretinho:
— A roupa do cego é suja!
Botem três guardas na porta,
Para que ele não fuja
Cego feio, assim de óculos,
Só parece uma coruja!
E disse o capitão Duda,
Como homem muito sensato:
— Vamos fazer uma bolsa!
Botem dinheiro no prato
— Que é o mesmo que botar
Manteiga em venta de gato!
Disse mais: — Eu quero ver
Pretinho espalhar os pés!
E para os dois contendores
Tirei setenta mil réis,
Mas vou completar oitenta
— Da minha parte, dou dez!
Me disse o capitão Duda:
— Cego você não estranha!
Este dinheiro do prato,
Eu vou lhe dizer quem ganha:
Só pertence ao vencedor
— Nada leva quem apanha!
E nisto as moças disseram:
— Já tem oitenta mil réis,
Porque o bom capitão Duda,
Da Parte dele, deu dez...
Se acostaram a Zé Pretinho,
Botaram mais três anéis.
Então disse Zé Pretinho:
— De perder não tenho medo!
Esse cego apanha logo
— Falo sem pedir segredo!
Como tenho isto por certo,
Vou pondo os anéis no dedo...
Afinemos o instrumento,
Entremos na discussão!
O meu guia disse pra mim:
— O negro parece o Cão!
Tenha cuidado com ele,
Quando entrarem na questão!
Então eu disse:
— Seu Zé, Sei que o senhor tem ciência
— Me parece que é dotado
Da Divina Providência!
Vamos saudar este povo,
Com sua justa excelência!
PRETINHO
— Sai daí, cego amarelo,
Cor de couro de toucinho!
Um cego da tua forma
Chama-se abusa-vizinho
— Aonde eu botar os pés,
Cego não bota o focinho!
CEGO
— Já vi que seu Zé Pretinho
É um homem sem ação
Como se maltrata o outro
Sem haver alteração?!...
Eu pensava que o senhor
Tinha outra educação!
P.
— Esse cego bruto, hoje,
Apanha, que fica roxo!
Cara de pão de cruzado,
Testa de carneiro mocho
— Cego, tu és o bichinho,
Que comendo vira o cocho!
C.
— Seu José, o seu cantar
Merece ricos fulgores;
Merece ganhar na saia
Rosas e trovas de amores
— Mais tarde, as moças lhe dão
Bonitas palmas de flores!
P.
— Cego, eu creio que tu és
Da raça do sapo sunga!
Cego não adora a Deus
— O deus do cego é calunga!
Aonde os homens conversam,
O cego chega e resmunga!
C.
— Zé Preto, não me aborreço
Com teu cantar tão ruim!
Um homem que canta sério
Não trabalha verso assim
— Tirando as faltas que tem,
Botando em cima de mim!
P.
— Cala-te, cego ruim!
Cego aqui não faz figura!
Cego, quando abre a boca,
É uma mentira,pura
— O cego, quanto mais mente,
Ainda mais sustenta e jura!
C.
— Esse negro foi escravo,
Por isso é tão positivo!
Quer ser, na sala de branco,
Exagerado e altivo
— Negro da canela seca
Todo ele foi cativo!
P.
— Eu te dou uma surra
De cipó de urtiga,
Te furo a barriga,
Mais tarde tu urra!
Hoje, o cego esturra,
Pedindo socorro
— Sai dizendo: — Eu morro!
Meu Deus, que fadiga!
Por uma intriga,
Eu de medo corro!
C.
— Se eu der um tapa
No negro de fama,
Ele come lama,
Dizendo que é papa!
Eu rompo-lhe o mapa,
Lhe rompo de espora;
O negro hoje chora,
Com febre e com íngua
— Eu deixo-lhe a língua
Com um palmo de fora!
P.
—No sertão, peguei
Cego malcriado
— Danei-lhe o machado,
Caiu, eu sangrei!
O couro eu tirei
Em regra de escala:
Espichei na sala,
Puxei para um beco
E, depois de seco,
Fiz mais de uma mala!
C.
—Negro, és monturo,
Molambo rasgado,
Cachimbo apagado,
Recanto de muro!
Negro sem futuro,
Perna de tição,
Boca de porão,
Beiço de gamela,
Vento de moela,
Moleque ladrão!
P.
— Vejo a coisa ruim
— O cego está danado!
Cante moderado,
Que não quero assim!
Olhe para mim,
Que sou verdadeiro,
Sou bom companheiro
— Canto sem maldade
E quero a metade,
Cego, do dinheiro!
C.
— Nem que o negro seque
A engolideira,
Peça a noite inteira
Que eu não lhe abeque
— Mas esse moleque
Hoje dá pinote!
Boca de bispote,
Vento de boeiro,
Tu queres dinheiro?
Eu te dou chicote!
P.
— Cante mais moderno,
Perfeito e bonito,
Como tenho escrito
Cá no meu caderno!
Sou seu subalterno,
Embora estranho
— Creio que apanho
E não dou um caldo...
Lhe peço, Aderaldo,
Que reparta o ganho!
C.
— Negro é raiz
Que apodreceu,
Casco de judeu!
Moleque infeliz,
Vai pra teu país,
Se não eu te surro,
Te dou até de murro,
Te tiro o regalo
— Cara de cavalo,
Cabeça de burro!
P.
— Fale de outro jeito,
Com melhor agrado
— Seja delicado,
Cante mais perfeito!
Olhe, eu não aceito
Tanto desespero!
Cantemos maneiro,
Com verso capaz
— Façamos a paz
E parto o dinheiro!
C.
— Negro careteiro,
Eu te rasgo a giba,
Cara de gariba,
Pajé feiticeiro!
Queres o dinheiro,
Barriga de angu,
Barba de guandu,
Camisa de saia,
Te deixo na praia,
Escovando urubu!
P.
— Eu vou mudar de toada,
Pra uma que mete medo
— Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse este enredo:
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!
C.
— Zé Preto, esse teu enredo
Te serve de zombaria!
Tu hoje cegas de raiva
E o Diabo será teu guia
— É um dia,
é um dedo, é um dado,
É um dado, é um dedo, é um dia!
P.
— Cego, respondeste bem,
Como quem fosse estudado!
Eu também, da minha parte,
Canto versos aprumado
— É um dado, é um dia, é um dedo,
É um dedo, é um dia, é um dado!
C.
— Vamos lá, seu Zé Pretinho,
Porque eu já perdi o medo:
Sou bravo como um leão,
Sou forte como um penedo
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!
P.
— Cego, agora puxa uma
Das tuas belas toadas,
Para ver se essas moças
Dão algumas gargalhadas
— Quase todo o povo ri,
Só as moças 'tão caladas!
C.
— Amigo José Pretinho,
Eu nem sei o que será
De você depois da luta
— Você vencido já está!
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará!
P.
— Cego, eu estou apertado,
Que só um pinto no ovo!
Estás cantando aprumado
E satisfazendo o povo
— Mas esse tema da paca,
Por favor, diga de novo!
C.
— Disse uma vez, digo dez
— No cantar não tenho pompa!
Presentemente, não acho
Quem o meu mapa me rompa
— Paca cara pagará,
Quem a paca cara compra!
P.
— Cego, teu peito é de aço
— Foi bom ferreiro que fez
— Pensei que cego não tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não é maçada,
Repete a paca outra vez!
C.
— Arre! Que tanta pergunta
Desse preto capivara!
Não há quem cuspa pra cima,
Que não lhe caia na cara
— Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara!
P.
— Agora, cego, me ouça:
Cantarei a paca já
— Tema assim é um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra,
Caca caca cacará!
Houve um trovão de risadas,
Pelo verso do Pretinho.
Capitão Duda lhe disse:
—Arreda pra lá, negrinho!
Vai descansar o juízo,
Que o cego canta sozinho!
Ficou vaiado o pretinho.
E eu lhe disse:
— Me ouça, José: quem canta comigo
Pega devagar na louça!
Agora, o amigo entregue
O anel de cada moça!
Me desculpe, Zé Pretinho,
Se não cantei a teu gosto!
Negro não tem pé, tem gancho;
Tem cara, mas não tem rosto
— Negro na sala dos brancos
Só serve pra dar desgosto!
Quando eu fiz estes versos,
Com a minha rabequinha,
Busquei o negro na sala,
Mas já estava na cozinha
— De volta, queria entrar
Na porta da camarinha!
Versos do Pelado
Eu cheguei no porto de Alagoas,
Estava tudo em belas condições
Tinha mais de cento e cinquenta embarcações
Entre Paquete navios e canoas
Na presença de mais de cem pessoas
Num Paquete Alemão eu encostei,
Quando ele quiz partir eu segurei,
Desta vez o PELADO criou fama ,
E o oceano ficou da cor da lama
Mas o navio só saiu quando eu solte
Estórias de Camões
Ver o mundo
O rei e a rainha tomavam banho nus todo dia numa fonte.
Certo dia, quando a rainha tirou a roupa, o rei disse:
- Oh senhora Rainha! Agora eu vi o mundo todinho!
Camonge que estava por ali, detrás de umas moitas,
caçando o cavalo disse:
- Oh senhor Rei! Viu meu cavalo também?
O melhor comer do mundo
Camonge ia passando quando o Rei perguntou:
- Camonge, qual é o melhor comer do mundo?
- Ovos duros, senhor Rei.
Depois de muito tempo, Camonge voltava de uma viagem.
Aí o Rei perguntou:
- Com o que Camonge?
- Com sal, senhor
OBS: ovos cozidos sem sal é intragável.
Passeio de Camonge
Toda noite Camoge ia passear.
Certo dia o Rei mandou uma negra vestida com roupa de homem
mondada numa égua tangendo uma porca. Quando ele chegou,
o Rei perguntou:
- Camonge, encontro quem?
- Senhor Rei, encontrei uma negra ou um negro
montado numa égua ou num cavalo, tangendo uma porca ou um porco.
A pedra de Camonge
Na frente do palácio real tinha uma pedra.
Todos os dias Camonge subia na pedra e ora ficava
olhando para o céu, ora para o chão.
Certo dia, o Rei aproveitando a ausência
dele chamou um grupo de homens virar a pedra.
Depois colocou uma folha de papel em baixo e pôs
a pedra no mesmo lugar, tendo o cuidado de deixar o
local como o encontrara, sem deixar rastros de sua ação.
No outro dia, Camonge veio e subiu na pedra novamente.
Lá ele voltou a seus pensamentos, olhando ora para baixo,
ora para cima. Aí o Rei perguntou - Camonge você está aí
admirado por quê?
- Senhor Rei, há uma diferença grande...
- Que diferença Camoge? Replicou o Rei.
- Ou o céu baixou ou a terra subiu.
Nem que seja da altura de uma folha de papel.